Toda viagem tem um perrengue

Califonia, here we come!!!

Olá amigos da Camille,

Como vai essa vida de pandemia? Espero que você não esteja lendo esse texto aglomerado na praia de Ipanema, hein?!

Como eu te disse na última publicação, hoje nós vamos embarcar para a Califórnia e dar mais um passo rumo à realização do sonho de conhecer todas as Disneys do mundo. Nada mais justo que, depois de visitar a Flórida, conhecer as raízes do parque criado pelo Seu Valdisnei (a gente gosta de abrasileirar as coisas).

Essa viagem aconteceu em abril de 2014 e, diferente das outras que ficamos em apenas um lugar, essa viagem incluía diversas regiões como San Diego, Anaheim (cidade onde fica a Disneyland), Los Angeles e suas praias e, por fim, Las Vegas. Ai que chique. Uma viagem de carro cheia de paradas de um lado e um marido pão duro do outro, sabe o que isso significa, né? PERRENGUE! E dos bons!

Ainda repetimos os mesmos erros

Embarcamos rumo ao LAX, aeroporto de Los Angeles. Tudo correu bem, dessa vez não ficamos 4h30 na fila da imigração – o moço aprendeu a não parar para fazer xixi antes de passar pela polícia, logo nota-se que foi traumático. Contudo, o moço não aprendeu, mesmo depois de tudo que passamos, que o ideal é sair com um carro COM GPS. É amigues, nem todo mundo aprende com os erros. Quando me dei conta estava vivendo um “remember” em busca de uma Best Buy.

Nessa época, aquele que é o irmão mais próximo do paulista, o Waze, já existia e a internet nos disse que ele seria essencial para aguentar o intenso tráfego de Los Angeles. Tínhamos o Waze, mas pagar roaming internacional é quase viajar duas vezes para qualquer lugar do mundo. Então, de carro mesmo, fomos em busca da Starbucks hahaha, mentira. O Victor (doce e pão duro marido) decorou o caminho até a Best Buy mais próxima do aeroporto. Você deve estar pensando “certeza que deu ruim”. Olha, não deu… O moço fez mesmo o dever de casa e chegamos sem grandes problemas – a gente acha até estranho, né? Deu tudo certo… Mas mores, a viagem só começou, tá?

Compramos o chip (Pedro!!!) e claro que demoramos alguns minutos para configurá-lo no aparelho, mas conseguimos. Só me lembro do moço pedindo “pelo amor de Deus, desliga o Whatsapp para não gastar dados”. A gente vem para Los Angeles e ele está preocupado com os dados, minha nossa senhora da avareza.

Dormir no carro vs. Hilton

Pois bem, como chegamos cedo, aproveitamos o dia em San Diego e ao anoitecer decidimos fazer o check-in no hotel. Chegando lá, passo o meu nome, pego o papel da reserva e aguardo. A moça olha o computador, olha para a minha cara, olha o computador, olha na minha cara, olha no computador, e a minha mente “Eita mano, tem alguma coisa na minha cara. Ou eles não aceitam brasileiros aqui”. Então a moça olha e dessa vez verbaliza que fizemos a reserva para a próxima noite e não para essa noite que estamos aqui vivendo e procurando uma cama confortável para nanar após 10 horas de viagem.

Aí você me diz “ah, tudo bem, veja se tem um quarto livre para hoje e paga à parte”. Não tinha. Um único quarto, um único canto, um porão que fosse. Não tinha. 22h e a gente sem hotel. Vamos subir até Los Angeles e dormir na placa de Hollywood ou na calçada da fama? Nada, vamos usar os dados – eu procurando um hotel e o moço fibrilando com o uso da internet. Todos os hotéis da região estavam lotados e a gente já planejando dormir no carro mesmo. Mas depois de uns 40 minutos consegui um lugar, e não era qualquer lugar, era um Hilton!!! Longe? Longe! Mas um Hilton. O moço, que até então estava fibrilando, morreu. Mentira. Mas feliz eu te digo que ele não ficou não, por ele o carro atendia bem para passar a noite.

Quando você entra em um hotel chique, meu bem, qualquer perrengue é facilmente esquecido. Até café da manhã tinha – porque não tínhamos feito nenhuma reserva com café, já que na América o Walmart é o nosso Bom Prato. Depois da noite de princesa, seguimos viagem de volta para a realidade, digo, para o centro de San Diego e lá ficamos por mais alguns dias no hotel previamente agendado. E não era um Hilton, infelizmente.

Próxima parada: Disney

Seguimos para Anaheim – eu, o Victor, e todos os nossos itens para café da manhã, que agora incluíam um pão azedo (porque não percebemos que estava escrito “sour” no pacote, que significa justamente “azedo”), nutella litrão e uma torradeira. Oi? Sim, isso mesmo, uma linda torradeira de 8 dólls (ah, que saudades do dólar a R$2,50, né minha filha?).

Chegamos na cidade da Disney ao anoitecer. Tudo certo com o hotel daqui (que pena, não vai ter repeteco de Hilton) e bora descansar, porque amanhã é dia de Disneyland! Com as mochilas devidamente abastecidas de “tapués” com lanchinhos, decidimos economizar também no estacionamento da Disney, que de fato costuma ser uma fortuna, e seguimos a pé. Ai ai, te digo que tem economias que não valem a pena e essa é uma delas.

Um sol de rachar na cabeça, quando chegamos no parque eu já queria voltar para o hotel para tomar um banho. Mas respira fundo e segue o jogo que estamos aqui para realizar um sonho. Olhando para o castelo da Cinderella e me vem o choro de emoção – obs.: dizem que o castelo da Califórnia é na verdade da Bela Adormecida. Fica aí a dúvida. Se alguém achar a escritura do castelo, me avisa.

O dia da realização do sonho termina com duas pessoas morrendo de fome, uma mochila vazia de alimentos e um moço que se recusa a comprar até mesmo uma bala dentro do parque. Na saída fomos correndo para um restaurante em frente ao parque e, exaustos, seguimos a pé de volta para o hotel que parecia ser o mais longe de todos na região – o que provavelmente justificava o preço baixo. Chegamos. Banho e cama – não tem outra programação possível para quem passa o dia todo num parque da Disney.

 

Um mac ‘n’ cheese e uma mentira

No dia seguinte acordamos para ir ao segundo parque, mas decidimos ir após o almoço, assim podemos comer em um restaurante bacanudo sem pagar tão caro como seria dentro da Disney. A fome cria traumas. Fomos ao famoso Bubba Gump, restaurante de frutos do mar conhecido por causa do filme Forest Gump. “Mas, Natasha, você não gosta de frutos do mar!” – obrigada pela lembrança. Mores,  realmente odeio, mas devia existir alguma coisa sem frutos do mar. Olhei o imenso cardápio e a única coisa que encontrei foi a batata frita mesmo. Todo o resto do restaurante era camarão, lagosta e nacos de coisas que deveriam estar morando no mar, mas por obra do humano, foram parar no restaurante.

Eis que vejo um “macaroni and cheese” com uma farofa de camarão. Pensei: “Hum, vou pedir sem essa farofa e boa”. Chega o moço, vai anotando o pedido, e quando chega no meu prato ele questiona “E por que sem farofa? Essa farofa é muito boa”. Então decido usar a minha boa e velha tática (mais velha do que boa na verdade) de dizer “I have sea food restrictions” (tenho restrições a frutos do mar). Pronto. A confusão estava armada. O moço ficou desesperado e sinalizou que ia conversar com o cozinheiro. Foi e voltou com o gerente. Ai minha nossa senhora das pessoas que falam que são alérgicas mas não são. Ele se põe a explicar que os frutos do mar circulam por toda a cozinha e que ele precisava saber o tipo de “restriction” que eu tinha para ter certeza que eu poderia comer alguma coisa de lá. Que erro amigues, que erro. Tentei explicar que estava tudo bem e que eu tinha uma alegria fraca. Horas depois da argumentação chegam os nossos pratos, o meu sem a farofa, mas o puro sabor do fundo do oceano. Eca. Tanto trabalho para nada!

Já disparou o alarme de incêndio hoje? Ou quase perdeu 200 dólares?

Tudo bem, segue o jogo. Aproveitamos muito Anaheim e vamos embora com a melhor sensação do mundo que é a de realizar mais um sonho. Vamos rumo a mais uma cidade de Los Angeles, próxima de um outro parque que tínhamos muita vontade de conhecer, o Six Flags. Ficamos num hotel próximo do parque, também sem café. Eis que uma manhã como outra qualquer, estamos preparando as torradas com o pão azedo e dispara o alarme de incêndio do nosso quarto. Pensem em duas pessoas completamente desesperadas pensando “seremos presos!”. O Victor então tira a torradeira da tomada, entrega para mim e diz “vai para o banheiro”.

Corta a cena e entra uma louca de pijama com uma torradeira nos braços, escondida atrás da cortina do box do banheiro. Enquanto isso o moço, de cueca, abre todas as janelas e as portas, sacudindo uma toalha loucamente para tentar dispersar a fumaça – porque perrengue que é perrengue além de te deixar nervoso, te leva a dignidade. Ninguém apareceu, o alarme parou e a gente quase desistiu da torradeira – só não desistimos porque gostamos de viver perigosamente.

Nos dias seguintes colocamos o aparelho bem longe do detector de fumaça e tudo ficou bem. Quer dizer, nem tudo. Esquecemos completamente de uma “experiência” que compramos e agendamos previamente no Brasil.

Pausa para explicar os quais dos porém dos afins – apesar de ser casada com a avareza, o moço adoro carros e direção. Nos EUA é relativamente comum ter circuitos onde você aluga um carro e fica rodando na velocidade que bem entender até morrer. 

Mas voltando à história, esquecemos completamente que o Victor tinha que estar no lugar para pegar o carro duas horas atrás. Pegamos o papel da reserva e lá dizia claramente: não reembolsável. Vamos pensar, quem pode nos ajudar? O Chapolin Colorado não, porque ele fica no México. Os dados gente! Peguei o celular e liguei para o lugar. Tirei da minha criatividade que tínhamos acabado de chegar nos EUA, que nosso voo atrasou muito e por isso perdemos o horário e pedi desesperadamente para deixar remarcar. A pessoa que me atendeu gentilmente disse que tudo bem. “Ah, Natasha, que feio mentir”. Concordo, errado. Mas veja bem, você ia aguentar o mau humor da pessoa que ia perder 200 dólares sem correr de carro? Pois é, eu não.

LA, baby

Viagem que segue e trânsito que quase não a deixa seguir – Los Angeles é mesmo um caos. Mas estamos de férias e isso é o de menos. Sempre aproveitávamos para passar no Walmart e manter nosso estoque de alimentos em dia. Em uma dessas visitas, decidimos comprar uma espécie de “pegador”, tipo esse da foto ao lado. Sempre bom ter esse tipo de utensílio em casa. “Mas nossa, isso vende no Brasil”. Vende mesmo, mas não em tamanho gigante como esse – talvez em Itu, mas quero este aqui mesmo. Estamos no caixa e a moça, simpática, segurando o pegador, olha para nós e pergunta “Are you gonna camping?” (“Vocês vão acampar?”). Virge, quebô.

Que tipo de pergunta é essa gente? Quem tá aqui para camping, minha senhora? Estamos em Los Angeles, eu tô aqui para tirar foto na estrela da Audrey Hepburn na calçada da fama. Mas claro que não respondi de forma grosseria. Como já tinha gastado a minha criatividade na remarcação do lance do Victor, o que me restou dessa vez foi um “No, we are from Brazil” (“Não, nós somos do Brasil”). Ai que vergonha. Algum tempo depois descobrimos que os americanos usam esses pegadores em acampamentos, para fazer churrasco ou mexer em algo na fogueira. Não tinha como ser mais óbvio.

Vamos que vamos que não vejo a hora de tirar uma foto sentada no H do Hollywood. Há. Só ela, né? Colocamos no Waze e seguimos caminhos absurdos, com ladeiras estranhas, tudo para tirar uma foto com o famoso letreiro. É rua que sobe, rua que desce, rua que vira e então pá! Grade. Toma essa meu bem. Quer subir no Hollywood? Não pode. No máximo você vai conseguir tirar uma foto igual essa minha, de longe. A cara é de felicidade, mas a verdade é que peguei um bode gigante desse letreiro. Foi um perrengue e tanto para chegar próxima dele e ser recebida por uma grade. Dura a vida. Quem sabe um dia se eu for famosa eles não me colocam lá? (não faço ideia de quem seriam “eles” rs).

Las Vegas e Grand Canyon

Se o letreiro não impressionou é hora então de ir para um lugar que não tem como decepcionar: Las Vegas, baby! Há quem ame, há quem odeie. No nosso caso a sensação foi de “está visto”. Mas aproveitamos que estávamos lá para checar passeios até o Grand Canyon. As recomendações eram de agendar um passeio de helicóptero pela internet mesmo e já fazer o pagamento. Pagamento de coisa estrangeira, pela internet, no geral requer uma coisa simples: um cartão de crédito internacional. Porém, mores, ele vem acompanhado de um amigo safado, que não entra na minha casa, um tal de IOF, conhece? Pois bem. Chegamos no lugar de agendamento e o risco que corríamos se concretizou: não tinha mais vaga para fazer o passeio de helicóptero – eu já estava me sentindo a própria madame passeando toda chique.

Porém, o atendente percebeu nossa decepção e ofereceu uma alternativa: disse que o mesmo percurso era feito por uma aviãozinho pequeno, em um outro pacote, inclusive mais em conta. Tem alguém do meu lado feliz da vida? Claro, né. Falou em economia, falou com ele. Mas conhecem o famoso ditado “barato sai caro?”, pois bem, para mim não saiu nada caro, mas para o Victor… Cinco minutos depois de decolar no teco-teco, olho para a pessoa do meu lado que está verde. O moço começou a passar mal com o balanço do aviãozeco e aproveitou um total de zero da paisagem percorrida. Voamos por quase uma hora e ele ficou com a cabeça abaixada por entre as pernas durante quase todo o trajeto – fica aí a dúvida se de helicóptero, pagando IOF, teria sido uma experiência menos traumática, rs.

Las Vegas foi o último ponto explorado por nós nessa viagem e, depois de receber uma notícia muito ruim – e que já vou comentar com vocês – o melhor que podíamos fazer era voltar para casa e descansar um pouco de uma longa viagem e de um grande baque.

Quando enfrentamos algo que vai muito além de um perrengue

Viajar é sempre maravilhoso, mas sabemos que muitas coisas podem acontecer nesse período, afinal o mundo não deixa de girar para você curtir outros lugares. Essa partezinha do texto de hoje infelizmente não vai trazer um perrengue divertido. Em um determinado momento da viagem recebi a ligação de uma grande amiga avisando de uma coisa ruim – afinal, se alguém te liga às 5 da manhã no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, sabemos, não há de ser boa coisa. E não era mesmo. Ela queria me contar da partida de um grande amigo que, na época, também era meu chefe.

Dedico todas as risadas que vocês deram com o texto de hoje ao meu querido Robinson Machado, um cara que entrou na minha vida profissional e, em pouco tempo, já fazia parte da minha vida pessoal como grande amigo. Com ele reaprendi a fazer comunicação. Aprendi a importância do cafezinho e das conversas no meio do expediente. Aprendi a ser mais resistente com um mundo que nem sempre é gentil.

Rob, amigo, boss, você sempre estará comigo. Como diz a música, do lado esquerdo do peito, dentro do coração.

Aproveito esse momento especial para lembrar você, leitor do Blog da Camis, que entramos no Setembro Amarelo, mês da campanha de prevenção ao suicídio. A ideia do movimento é divulgar a importância de ações e de conversas em torno desse tema tão difícil, mas que precisa ser tratado de forma ampla, não só em setembro, mas todos os dias. O CVV é uma das ONGs mais antigas do país, que fundada em São Paulo em 1962, atua no apoio emocional e na prevenção do suicídio pelo telefone 188 e também por chat, e-mail e pessoalmente. Não há vergonha em procurar ajuda – por você ou por quem você ama.

Termino esse texto assinando com o apelido que ele usava para mim. Mas te garanto que volto em breve com mais algum perrengue – tenho certeza que ele deve estar lendo e rindo, de onde quer que esteja.

Beijos no seu coração viajante,

Natingui

 

 

 

 

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